- O que ela está fazendo aqui? – Perguntou a seu
pai olhando Lindsay com desdém.
- Eu vim te
explicar...
- Mas você não
tinha explicado quando contou aquela história absurda sobre meu pai estar me
ameaçando?
- Não é
absurda. – Murillo disse suspirando.
- Como assim?
Quer dizer que você a ameaçou mesmo?
- Então... É
uma história meio confusa Lunna... – Sua mãe começou.
- Sente-se,
querida. É confusa e longa. – Lunna se sentou meio desconfiada.
- Podem
começar. – Eles se entreolharam.
- Então vamos
começar por uma parte que você não sabe: Você tem outro tio além de Carlos. É o
irmão do meio: Zion. – Murillo disse enquanto observava a cara confusa de
Lunna.
- E por que
nunca soube dele?
- Ele não mora
na Bulgária. Mora nos EUA. Além de que foi meio que... Deserdado. - Lindsay
respondeu. - Eu passei um tempo nos States, como deve saber, e lá eu conheci
Zion. Ele era encantador, gentil, galanteador, divertido, me fez ficar
apaixonada rapidamente com toda a inocência que tinha. Então ele me levou para
a cama. E, bem, depois desapareceu. Eu fiquei desolada, mas em vez de sentir
raiva, só queria que ele voltasse para mim. Mas isso não aconteceu. Voltei para
a Bulgária e descobri que estava grávida dele. Fiquei ainda pior. Chorava todas
as noites no meu quarto. Como contaria isso para meus pais? Não tinha idéia.
Quando eu contei, eles ficaram muito decepcionados. Mas pensaram mais na minha
imagem. Eu iria ficar muito mal falada. Eles tinham uma família bem amiga.
- Meus pais. Eu
também estava dando uns problemas... Com mulheres e acharam que seria uma coisa
boa para nós dois. Um acordo em que ambas as partes seriam beneficiadas.
- O casamento
de vocês foi isso? Um acordo?
- Sim. – Responderam juntos. Murillo
continuou: - O bebê nasceu. Acabei criando um carinho especial por ele.
- Era eu?
- Não
querida...
- Então eu
tenho um irmão?
- Sim, espere
um pouco. Vou continuar. Acho que nossa história não parece real às vezes.
Parece mais com uma novela mexicana. – Lindsay disse. – Bem, em uma noite,
quando ele já tinha cinco meses, nós o deixamos no quarto dele para dormir e
descemos até a sala. Resolvemos ver um filme de terror. Podia ser um casamento
arranjado e não éramos apaixonados um pelo outro, mas sim melhores amigos.
Depois de uma hora e dez minutos de filme, ouvimos um barulho extremamente alto
no quarto dele. Subimos correndo e quando chegamos lá meu filho não estava no
berço, a janela estava escancarada. Fomos para o lado de fora da casa, chamamos
a polícia e eles procuraram por dias, mas não o encontraram. Depois disso
fiquei completamente desorientada. Bebia, bebia, virei uma alcoólatra
incontrolável. Murillo tentava me ajudar, mas não conseguia direito. O máximo
que dava era que ele tirava antes de estar tão bêbada que não fosse lembrar-me
do que havia acontecido na noite anterior. Eu ficava chorando em seus braços,
pois a bebida não me fazia esquecer. Eu só ficava pior. Mas em uma noite meu
pai passou mal. Murillo foi com a minha família e eu fiquei sozinha em casa,
pois não tina condições de ir. Fique pior ainda. Bebi até que a única coisa que
me lembrava era de um homem conhecido entrando na casa. No outro dia acordei na
cama, nua, com o cheiro de outro e Murillo me olhando assustado. Eu contei a
ele sobre o que me lembrava e ele ficou desesperado.
- Chamei até a
polícia novamente. Alguém havia abusado dela, enquanto estava indefesa. Mas não
deu em nada. Então
acabou descobrindo que estava grávida novamente. Isso por alguma razão a fez
melhorar. Podia nem saber de quem era, mas a criança não tinha nenhuma culpa
por isso. Então, depois de nove meses você nasceu. E bem, depois de seu
nascimento que aconteceu algo entre nós. Então nos tornamos um casal de
verdade. Você era nossa filhinha, mesmo não sendo de sangue, eu te amava como
uma filha de verdade. Nunca esquecíamos nosso outro filho, mas a polícia já
havia desistido. Então aconteceu o acidente. Vocês duas ficaram mal. Eu
realmente pensei que sua mãe havia morrido quando o médico me disse.
- Mas era Zion.
Ele não tinha sumido da minha vida como eu acreditava. Ele apareceu no dia em
que acordei e me ameaçou. Descobri que ele havia sequestrado meu filho e abusado
de mim. Não entendia o quão insano ele era. Até porque me ameaçou para ficar
com ele e meu filho. Zion era louco. Ele me queria e se tivesse ficado comigo
naquela época estaria comigo até depois, pois eu o amava, mas por alguma razão
ele não o fez. Abandonou-me, me machucou. Ele me forçou a ficar com ele em um lugar
muito isolado. Meu filho também estava lá e esse foi meu único consolo. Mas
sentia a falta de vocês. Sentia como se um pedaço de mim tivesse sido arrancado
à força. Zion tinha surtos de loucura,
de violência e machucava a si próprio.Seu irmão cresceu. Zion o deixava ir a
uma escola, mas eu ficava presa sobre a mira dele, para caso meu filho quisesse
fugir. Ele nunca o fez. Nunca abriu a boca. Só que uma vez eu consegui pegar um
telefone escondido e liguei para seu pai. Isso foi há pouco tempo. Murillo
quase teve um ataque e custou a acreditar. Quis chamar a polícia e eu deixei,
mas informei que não sabia muito bem onde estava. Pedi a meu filho que
descobrisse e ele perguntou a pessoas da escola. Ele me disse e contei a seu
pai. A polícia fez uma investigação que durou meses e assim conseguiram prender
aqueles que colaboravam com Zion, mas ele foi encontrado morto. Parece que se
matou em um dos seus surtos.
- E agora você
está aqui. – Lunna falou.
- Sim, querida.
- É muita coisa
pra absorver... Isso parece algum filme, uma novela... Como pode? A gente nunca
pensa que isso poderia acontecer perto de nós. – Lindsay concordou – Mãe?
- O que?
- Me dá um
abraço?
- Claro meu
amor. – A morena mais velha se levantou indo até a filha.
- Ah, e meu
irmão?
- Ele está com
meus pais na Bulgária.
- Ah, e
querida? Nós vamos para lá amanhã. – Murillo disse.
- Nossa, mas
já?
- Sim, faça
suas malas que iremos ficar três meses lá.
- E depois?
- E depois? Eu
não sei. – Lindsay falou abraçando Lunna mais forte.
- Acho que vou
chorar. – A garota disse com a voz embargada.
- Eu também. –
E as duas começaram a chorar fazendo Murillo revirar os olhos.
- Vocês duas
são muito iguais caramba. – Falou.
- Se junte ao
abraço papai. – Lunna esticou o braço e o homem não resistiu as abraçando. –
Pode não ser de sangue. Pode ser meu tio, mas no meu coração será sempre meu
papai. Eu amo vocês.
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